Nas últimas décadas, a economia brasileira viveu períodos de volatilidade econômica, alternando fases de grande otimismo com momentos de forte recessão. Nos anos mais recentes, porém, o país tem mostrado uma resiliência notável diante de mudanças políticas no cenário internacional, de guinadas em políticas comerciais e de eventos climáticos extremos que afetaram o comércio global.
Esse ambiente global em transformação traz desafios evidentes, mas também abre janelas relevantes de oportunidade para o Brasil, maior economia da América Latina e ator-chave no emergente Sul Global. A decisão dos Estados Unidos, em julho de 2025, de aplicar tarifas de 50% sobre determinados produtos brasileiros — medida que já foi retroagida em sua maior parte — representou um revés. Mesmo assim, vários movimentos estruturais da economia mundial continuam favorecendo as vantagens competitivas do país.
Entre essas vantagens estão um mercado interno de 213 milhões de habitantes, ao mesmo tempo amplo, em crescimento e relativamente estável; uma oferta abundante de energia renovável, recursos agrícolas e minerais críticos de que o mundo precisa com urgência; e um ecossistema vibrante de startups, sobretudo em serviços e tecnologia financeira, apoiado por profissionais de tecnologia altamente qualificados. “O Brasil reúne ativos biológicos, minerais, energéticos e humanos que sustentam uma vantagem competitiva de longo prazo”, afirma João Paulo Ferreira, CEO da Natura, empresa de beleza referência que adota modelos de negócio regenerativos. Além disso, a postura de neutralidade geopolítica e a diplomacia ativa com economias avançadas e com as potências emergentes tornam o Brasil um parceiro de negócios confiável para diferentes blocos.
Líderes empresariais brasileiros ouvidos ao longo dos últimos meses enxergam nesse contexto uma oportunidade rara, talvez única em uma geração, de acionar um novo ciclo de crescimento sustentável. O país pode consolidar ainda mais sua posição como potência do agronegócio, ampliar sua participação em cadeias globais de manufatura, tornar-se base para data centers e plantas industriais intensivos em energia que buscam reduzir sua pegada de carbono e se firmar como fornecedor estratégico de materiais críticos. Também pode fortalecer seu papel como hub regional de startups e serviços digitais e impulsionar uma nova onda de investimentos em infraestrutura, elevando produtividade, conectividade e resiliência em todo o território.
Para aproveitar todo esse potencial, o Brasil precisa enfrentar entraves estruturais ainda significativos, como barreiras tarifárias elevadas, sistemas tributário e regulatório excessivamente complexos e gargalos de transporte e logística. No campo das exportações, o país terá de ir além da forte dependência atual de commodities. Como resume Francisco Gomes Neto, CEO da Embraer: “Precisamos de menos proteção, mais competitividade e maior foco em produtos de alto valor agregado.” Em cada uma dessas frentes, contudo, já se observam avanços importantes.
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A evolução econômica do Brasil
Nas últimas quatro décadas, a economia brasileira passou por sucessivas mudanças de rumo. No fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, o país enfrentou um período de hiperinflação que, em seu auge, chegou perto de 2.500% ao ano. A escalada inflacionária começou a ser contida com a redemocratização, em 1988, e, na sequência, com a implementação do Plano Real, que trouxe reformas fiscais e criou uma nova moeda, o real (R$).
Seguiu-se quase uma década de maior estabilidade econômica, impulsionada pela abertura comercial, pela desregulamentação, pela forte alta do investimento estrangeiro direto (IED) e por melhorias na governança. Na esteira do boom global das commodities, o Brasil cresceu com vigor: o IED atingiu níveis recordes, e o governo ampliou programas sociais que reduziram de forma expressiva a pobreza. Entre 2004 e 2012, o crescimento nominal do PIB girou em torno de 4% ao ano. Em seguida, a queda abrupta dos preços das commodities — somada a erros de gestão fiscal e à instabilidade política — voltou a empurrar a economia para uma crise profunda.
A retomada mais recente começou por volta de 2020, sustentada por uma agenda de reformas trabalhistas, previdenciárias e tributárias. Hoje, a inflação está sob controle, e o Brasil se tornou o quinto maior destino de IED do mundo, recebendo cerca de US$ 70 bilhões em 2024 (ver Gráfico 1). A taxa de pobreza ainda é elevada, em torno de 24%, mas bem abaixo dos 54% registrados em 1998.
Apesar dos progressos, persistem desafios econômicos relevantes e fragilidades no ambiente de negócios. As barreiras ao comércio seguem altas, e o país mantém poucos acordos de livre-comércio. A produtividade está praticamente estagnada. Dados de 2023 indicam que o Brasil investe apenas 1,19% do PIB em P&D, bem menos que a média de 2,4% observada entre os 38 países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O arcabouço regulatório e o sistema de impostos são complexos e pouco eficientes, com União, estados e municípios tributando frequentemente as mesmas atividades. Esses e outros fatores ajudam a explicar por que o Banco Mundial coloca o Brasil na 124ª posição do ranking global de facilidade para fazer negócios. A infraestrutura também é insuficiente, o que limita a logística e a capacidade das empresas de ganhar escala. Apenas 18% das rodovias brasileiras são pavimentadas — cerca de metade da média global.
Esses entraves compõem o chamado Custo Brasil — o encarecimento estrutural de produzir bens e serviços no país. Só o sistema tributário responde por algo entre R$ 240 bilhões e R$ 280 bilhões ao ano em custos operacionais (o equivalente a cerca de US$ 44 bilhões a US$ 52 bilhões), enquanto questões regulatórias e de segurança adicionam mais R$ 160 bilhões a R$ 200 bilhões, segundo o Observatório do Custo Brasil, iniciativa de pesquisa apoiada pelo governo. A taxa básica de juros, definida pelo Banco Central, está em 15%, uma das mais altas do mundo.
A educação também é um ponto crítico. Nos resultados mais recentes do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), jovens brasileiros de 15 anos ficaram na 52ª posição em leitura, 61ª em ciências e 64ª em matemática, bem abaixo da média dos países da OCDE.
A boa notícia é que formuladores de políticas públicas vêm, aos poucos, enfrentando essas dificuldades. Os investimentos em infraestrutura estão em trajetória de alta. Uma aguardada reforma tributária — que inclui a adoção de um imposto sobre valor agregado — está em fase de implementação e deve simplificar o cumprimento de obrigações fiscais. Paralelamente, o Brasil pode ampliar o acesso a mercados globais ao capturar o potencial do recente acordo entre o Mercosul e a União Europeia, e ao buscar novos tratados com parceiros como México, Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e Reino Unido. Na educação, o país lançou uma nova base curricular nacional, construída em parceria entre setor público e iniciativa privada, para assegurar que todos os estudantes desenvolvam as competências exigidas no mercado de trabalho.
Vantagens estruturais que podem sustentar um crescimento duradouro
O Brasil reúne fundamentos sólidos quando comparado a muitos de seus pares no Sul Global. “Se bem aproveitadas, essas vantagens naturais únicas podem reposicionar o país no cenário internacional”, observa Pedro Passos, CEO da Ânima Investimentos. “O desafio é transformar esses recursos em vantagem competitiva.” De fato, o próprio esforço para corrigir alguns gargalos — como os de infraestrutura — tende a gerar novas ondas de crescimento.
Hoje, diversas megatendências globais estão alinhadas aos pontos fortes do Brasil. Além de um mercado consumidor de US$ 1,3 trilhão — o oitavo maior do planeta — o país conta com as seguintes vantagens relevantes:
- Energia renovável. O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo: estima-se que cerca de 88% da eletricidade consumida no país venha de fontes renováveis, como hidrelétricas, usinas solares e eólicas — a maior participação entre as economias do G20. Além de ser de baixo carbono, essa energia é competitiva, tendo custo mais baixo que 60% do G20 — cerca de US$ 103 por MWh.
- Recursos naturais abundantes. As tensões geopolíticas e as rupturas nas cadeias globais de suprimentos tornaram o acesso estável a recursos naturais um imperativo estratégico. O Brasil é rico em reservas ainda pouco exploradas de minerais críticos para a manufatura de alta tecnologia e para a transição energética. O país detém a segunda maior reserva de grafite do mundo, a terceira maior de minerais de terras raras e volumes relevantes de cobre, níquel e lítio. Também concentra 13% da água doce do planeta, vastas áreas de terra fértil e uma das maiores biodiversidades do mundo. Além da Floresta Amazônica, abriga o Cerrado — bioma que cobre cerca de 200 milhões de hectares no Planalto Central e é considerado a savana mais biodiversa do mundo. O Cerrado desempenha papel central na agricultura global, respondendo por 6% da produção mundial de carne bovina e milho, 9% do algodão, 25% da soja e 27% da cana-de-açúcar. Somadas aos grandes ganhos recentes de produtividade e eficiência de custos, essas vantagens naturais fazem do Brasil uma potência agrícola. O país é também o segundo maior produtor mundial de biodiesel e etanol.
- Força digital. O Brasil dispõe de infraestrutura digital avançada e altos níveis de conectividade. Estimativas do Banco Mundial indicam que cerca de 95% da população utiliza a internet diariamente, o que favorece uma intensa participação digital. Apenas seis anos após o lançamento, pelo Banco Central, o sistema de pagamentos instantâneos Pix já é usado por aproximadamente 70% dos brasileiros. O Pix democratizou o acesso a serviços financeiros, permitindo transações 24 horas por dia sem cobrança de tarifas — e vem sendo estudado por outros países do Sul Global como modelo. Depois de China e Índia, o Brasil abriga o terceiro maior contingente de desenvolvedores de software e profissionais de tecnologia de baixo custo do mundo (ver Gráfico 3). Essa base permitiu a criação de um setor dinâmico de serviços de Tecnologia da Informações e Comunicações (TIC): as exportações desse segmento já respondem por 13% do total exportado pelo país e vêm crescendo cerca de 15% ao ano na última década.
- Ecossistema dinâmico de startups digitais. O Brasil consolidou-se como principal polo de inovação da América Latina, com uma comunidade ativa de startups apoiada por fundos de venture capital que movimentaram cerca de US$ 2 bilhões em 2024, alta de 17% em relação a 2023. Embora ainda invista pouco em P&D básico, o país figura entre os 15 maiores do mundo em número de startups e entre os 10 primeiros em quantidade de unicórnios — empresas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão. O país se destaca especialmente em fintechs e outros serviços digitais. Vários unicórnios brasileiros já se internacionalizaram, como o Nubank, plataforma financeira digital que oferece cartões de crédito, empréstimos e outros serviços a mais de 120 milhões de clientes na região; o QuintoAndar, plataforma digital de imóveis com presença crescente na América Latina; e a Wellhub, solução corporativa de bem-estar que conecta colaboradores a academias, serviços de saúde mental e outras ofertas na América do Norte, Europa e Ásia.
- Setor industrial diversificado. O Brasil possui uma das bases industriais mais amplas do Sul Global. Quase todas as grandes montadoras globais produzem veículos no país. A Embraer ancora uma indústria aeronáutica de padrão internacional. O país também é importante exportador de máquinas, aço e alimentos processados. Embora parte dessa estrutura tenha se formado a partir de políticas de substituição de importações, adotadas décadas atrás para estimular a industrialização, elas deixaram como legado um parque fabril robusto e uma mão de obra experiente e qualificada.
- Neutralidade política e diplomacia ativa. A postura neutra e não alinhada do Brasil tem permitido ao país evitar o envolvimento direto em conflitos entre grandes potências que acabam restringindo comércio e investimento. Como democracia estável, o Brasil mantém relações positivas com a maioria das nações ocidentais, apesar de tensões pontuais recentes com os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, seu papel ativo no BRICS+ — grupo que reúne os cinco membros originais (Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul) e outros cinco países que ingressaram ou foram convidados a ingressar a partir de janeiro de 2024 (Egito, Etiópia, Indonésia, Irã e Emirados Árabes Unidos) — e no movimento do Sul Global posiciona o país no centro de algumas das economias que mais crescem no mundo. Nos últimos dois anos, o Brasil esteve em destaque na diplomacia internacional, sediando encontros de alto nível como as reuniões do G20 e do B20 (fórum de diálogo empresarial), uma cúpula do BRICS e a COP30. Essa atuação ampla permite reequilibrar as relações comerciais do país. Desde 2019, por exemplo, a participação da China no comércio exterior brasileiro subiu de 24% para 26%, enquanto a fatia dos países do Sul Global aumentou de 28% para 30%. Para Francisco Gomes Neto, da Embraer, há “enormes oportunidades de ampliar o comércio intra-BRICS, fortalecer cadeias de suprimentos, logística e investimentos em infraestrutura”. Ao mesmo tempo, a participação dos países do Norte Global nas trocas comerciais do Brasil caiu de 48% para 44% no período. A competitividade brasileira também abre portas para mercados alternativos para produtos como café, soja, carne e frutas, que tendem a ser afetados pelas novas tarifas dos EUA.
Seis oportunidades para alavancar as vantagens do Brasil
Essas vantagens estruturais se traduzem em oportunidades concretas para que o Brasil acelere o crescimento e fortaleça sua posição competitiva no cenário internacional. A seguir, destacamos seis frentes particularmente promissoras.
Oportunidade 1: Gerar mais valor a partir dos recursos biológicos
Poucos países têm condições tão favoráveis quanto o Brasil para responder ao aumento da demanda global por alimentos. O país pode reforçar sua posição como maior exportador mundial de soja, café, açúcar, frango e carne bovina ao seguir investindo em tecnologias e práticas agrícolas que aumentem a produtividade e a resiliência das lavouras a eventos climáticos extremos. Além disso, pode ampliar sua atuação como fornecedor global de alimentos processados e de biocombustíveis de nova geração, cuja procura cresce à medida que companhias aéreas, empresas de navegação e outros setores são pressionados a reduzir emissões de gases de efeito estufa.
O Brasil também pode extrair muito mais valor de sua enorme biodiversidade. Para Pedro Passos, da Ânima Investimentos, a riqueza de plantas, animais e microrganismos presentes em florestas e savanas brasileiras pode ser melhor utilizada como fonte de novos alimentos, fármacos, cosméticos e compostos bioativos. “Precisamos transformar biodiversidade em ciência aplicada e negócios, com missões claras de inovação, pesquisa orientada a resultados e regras que deem segurança jurídica, rastreabilidade e horizonte de longo prazo para o investimento”, defende.
Dan Ioschpe, high-level climate champion da COP30 e presidente do conselho da fabricante global de rodas automotivas Iochpe‑Maxion, destaca que a bioeconomia pode ser um motor importante de criação de riqueza não só para as empresas, mas também para as comunidades locais. Segundo ele, o país poderia construir um verdadeiro “PIB da floresta” — que hoje praticamente não aparece nas contas nacionais — ao transformar a biodiversidade em fonte de renda por meio de subprodutos sustentáveis, remunerando populações locais pela preservação.
Há ainda oportunidades relevantes ligadas à liderança do Brasil em projetos de sequestro de carbono e em soluções baseadas na natureza. Exemplos incluem a regeneração de áreas degradadas e modelos de agrofloresta, como o programa de óleo de palma da Natura, que combina preservação ambiental com produção de alimentos. Iniciativas como essas podem gerar créditos de carbono negociáveis em mercados globais.
As empresas podem posicionar o Brasil como laboratório global para sistemas de rastreabilidade e verificação de sustentabilidade ambiental, elevando a transparência e a aderência a padrões internacionais, especialmente na bioeconomia, na gestão de resíduos e nos mercados de carbono. “Não há dúvida de que esses serviços terão valor crescente”, afirma João Paulo Ferreira, da Natura. “Países que não investirem em soluções para reduzir impactos ambientais enfrentarão desafios sérios de sustentabilidade econômica.”
Oportunidade 2: Acelerar o desenvolvimento de minerais críticos
A diversidade e a escala das reservas brasileiras de minerais críticos abrem espaço para que o país conquiste uma fatia maior dos mercados globais, sobretudo em momentos de ruptura nas cadeias de suprimentos. O Brasil pode acelerar a exploração de jazidas de grafite e de terras raras, por exemplo. “Não podemos nos limitar a exportar matéria-prima bruta”, ressalta Luciana Ribeiro, sócia‑fundadora da EB Capital. “Precisamos exportar tecnologia e conhecimento. A regulação e o financiamento começam, finalmente, a se alinhar às nossas vantagens competitivas para que isso aconteça.”
Ao avançar da mineração para as etapas de refino e produção de bens de maior valor agregado, o Brasil pode se firmar como fornecedor-chave para fabricantes de alta tecnologia e de energia limpa que buscam diversificar suas fontes de suprimento. Investimentos nessas etapas também permitem que o país suba na cadeia de valor. “Embora o Brasil detenha algumas das maiores reservas de terras raras do mundo, ainda não estruturou uma indústria capaz de transformar essa vantagem em liderança global”, observa Alberto Kuba, CEO da WEG, uma das maiores produtoras de motores elétricos do planeta.
Oportunidade 3: Ser um motor da transição energética global
A predominância de fontes renováveis na matriz energética dá ao Brasil uma vantagem singular nos esforços de descarbonização mundial e oferece uma base competitiva para expandir indústrias locais. “Temos todos os fundamentos para liderar a próxima fase da transição energética global”, afirma Luciana Ribeiro. “O desafio agora é baratear e ampliar o acesso ao capital e escalar as tecnologias disponíveis.”
O país desponta como destino atrativo para empresas estrangeiras que buscam reduzir a pegada de carbono de suas operações. A siderurgia brasileira, por exemplo, emite hoje cerca de 37% menos CO2 por tonelada de aço que a média global, e a indústria do alumínio emite aproximadamente 60% menos. “Nossa matriz energética competitiva, renovável e de baixo custo tende a atrair investimentos industriais de grande escala”, projeta Ricardo Mussa, chair da Sustainable Business COP e ex‑CEO da Raízen, empresa líder em biocombustíveis.
O Brasil também pode se consolidar como destino de baixo custo para data centers altamente intensivos em energia. Apenas em 2025, grandes empresas de tecnologia anunciaram investimentos da ordem de US$ 2 bilhões em centros de dados no país. “O Brasil combina energia limpa, disponibilidade de espaço e um mercado em rápida expansão”, destaca Kuba, da WEG. Ele observa que a potência instalada de novos data centers no país já pode atingir centenas de megawatts, ante 20 a 50 megawatts há poucos anos — um salto que “mostra a escala e a velocidade da demanda por computação em nuvem no país”. A expectativa de Kuba é que a capacidade instalada possa quadruplicar até 2030, alcançando cerca de 2 gigawatts.
Oportunidade 4: Integrar-se melhor às cadeias globais de valor agregado
O Brasil pode ampliar a escala e a presença internacional de suas indústrias ao explorar de forma mais estratégica sua rede de relações comerciais e diplomáticas, seus recursos naturais, sua mão de obra relativamente acessível e seu vasto mercado interno. “Há uma oportunidade concreta de aumentar a exportação de produtos com maior valor agregado e subir na cadeia global de valor”, avalia Gomes Neto, da Embraer. “Mas, para isso, precisamos ser de fato competitivos, combinando força tecnológica com eficiência de custos.”
O país pode se tornar uma base estável e atraente para empresas globais que desejam diversificar sua produção e cadeias de suprimentos. Entre os setores com maior potencial se destacam autopeças, aeroespacial, componentes para energia eólica e veículos fora de estrada, entre outros.
Oportunidade 5: Desenvolver o Brasil como base de inovação e serviços digitais
Graças ao grande contingente de profissionais de tecnologia, à população altamente conectada e ao dinamismo do ecossistema de startups, o Brasil está bem posicionado para crescer em serviços digitais avançados. O país pode se firmar como hub global de serviços de TI, engenharia, P&D, finanças e outras atividades especializadas — especialmente para clientes nas Américas que precisam de suporte em fusos horários próximos. O uso intensivo de ferramentas de inteligência artificial tende a reduzir barreiras de idioma e a elevar a eficiência operacional dos clientes atendidos por empresas brasileiras. Com melhorias adicionais no ambiente de negócios, o país também pode se consolidar como polo de inovação para novas startups digitais.
Para capturar plenamente essas oportunidades, será essencial garantir que uma parcela maior da força de trabalho atual e futura desenvolva competências digitais. Setor público e iniciativa privada podem ampliar programas de capacitação e requalificação, enquanto o sistema educacional precisa reforçar a formação em ciência, tecnologia, engenharia e matemática, aproximando-a dos padrões internacionais.
Oportunidade 6: Investir de forma mais agressiva em infraestrutura
A infraestrutura é, talvez, a maior oportunidade isolada para elevar a produtividade e a competitividade de longo prazo do Brasil. Hoje, o país aplica algo em torno de 2% do PIB em infraestrutura de transporte, saneamento, energia elétrica e telecomunicações. “Apesar das grandes virtudes do Brasil — dos recursos naturais ao capital humano e à estabilidade jurídica — ainda há muito por fazer”, avalia Beto Abreu, CEO da Suzano, uma das maiores produtoras de celulose e papel do mundo. “O déficit de infraestrutura é grande, mas também representa um campo vasto de investimentos com retornos atraentes.”
Já existem sinais de que “estamos entrando em um superciclo de investimentos”, nas palavras de Miguel Setas, CEO da Motiva, empresa líder em concessões de infraestrutura no país. Projeções da Confederação Nacional da Indústria indicam que os investimentos em infraestrutura devem alcançar cerca de US$ 50 bilhões em 2025, o que significaria um crescimento médio anual de 13% desde 2020. Segundo Setas, esse volume “poderia chegar mais perto de 4% do PIB, alinhado ao patamar de outras economias emergentes”. Para isso, seria necessário investir aproximadamente US$ 90 bilhões ao ano na próxima década, o que exigirá mecanismos de financiamento inovadores e maior participação de capital privado. A presença do setor privado já avançou em vários segmentos — de rodovias e ferrovias a aeroportos, portos, saneamento e transmissão de energia. O sucesso dos leilões recentes de rodovias e aeroportos demonstra o apetite de investidores nacionais e estrangeiros por ativos de longo prazo. Ainda assim, há amplo espaço para crescer: menos de 2% da malha rodoviária brasileira está sob concessão. “Capital não falta”, resume Setas. “O que precisamos é tornar mais simples a gestão dos riscos cambiais e a navegação pelas complexidades regulatórias e jurídicas.”
O Brasil chega, assim, a um ponto de inflexão histórico. Nos últimos anos, governo e iniciativa privada concentraram esforços em sustentar a recuperação econômica e lidar com transformações profundas na geopolítica, no comércio e na tecnologia. Agora, o país tem a chance de voltar-se de maneira mais decidida para as oportunidades abertas por esse novo contexto global, assumindo compromissos ambiciosos que exigirão coordenação estreita entre os setores público e privado. Ao reposicionar sua economia e suas indústrias, o Brasil pode liberar todo o seu potencial, alcançar taxas mais altas de crescimento sustentado e ocupar um papel ainda mais relevante no cenário mundial.
Os autores agradecem as contribuições dos seguintes executivos para este artigo:
Alberto Kuba, CEO da WEG
Beto Abreu, CEO da Suzano
Dan Ioschpe, presidente do conselho da Iochpe‑Maxion e high-level climate champion da COP30
Francisco Gomes Neto, CEO da Embraer
João Paulo Ferreira, CEO da Natura
Luciana Ribeiro, sócia‑fundadora da EB Capital
Miguel Setas, CEO da Motiva
Pedro Passos, CEO da Ânima Investimentos
Ricardo Mussa, chair da Sustainable Business COP e ex‑CEO da Raízen